Escrevo isso pensando na minha versão de 14 anos, que sonhava em ser atleta olímpica; e que precisava saber que existiam outros caminhos igualmente incríveis.

Comecei a jogar tênis de mesa aos sete anos na Associação Cultural e Esportiva de Londrina (ACEL). O primeiro contato com o esporte aconteceu por conta do meu irmão, que já praticava. No começo, eu treinava de noite, duas vezes na semana, nas terças e quintas-feiras com o Tio Ilson, que organizava uma fila para revezarmos na mesa. No ano seguinte, comecei a treinar todos os dias no período da tarde, em uma turma grande. Continuei treinando, comecei a competir — primeiro nos campeonatos paranaenses, e logo depois em nível nacional. O esporte foi ficando sério, e aos 10 anos disputei meu primeiro campeonato internacional, um sul-americano no Paraguai.

Aos 11 anos, por conta do trabalho do meu pai, nos mudamos para o Rio Grande do Sul, onde passei a treinar com o Jorge Fanck. Continuei competindo bastante e depois retornei a Londrina para fazer o ensino médio. Naquela época, meu objetivo era ser atleta quando crescesse. Treinava cinco vezes por semana, várias horas por dia, me dedicando muito ao tênis de mesa com o sonho de me tornar atleta profissional e viver do esporte. Joguei pela seleção brasileira de base em vários campeonatos na América Latina, e cheguei a participar de um Mundial Juvenil na África do Sul em 2016.

Eu faltava muito na escola por conta das viagens para campeonatos, mas sempre estudei durante os intervalos e fins de semana, muitas vezes nas arquibancadas dos ginásios. Quando tinha 16 anos, decidi que queria estudar fora. Pesquisei muito na internet sobre as oportunidades e como funcionava o processo. Descobri que precisava fazer o TOEFL e o ACT/SAT, e que nas universidades americanas as atividades extracurriculares eram tão importantes quanto o desempenho acadêmico. Me dediquei muito a essa jornada: participei de iniciação científica, me preparei para os testes e fiz o processo de aplicação. Fui aceita em Barnard College com bolsa completa.

Aos 19 anos, me mudei para Nova Iorque, onde cursei a graduação e me formei com diploma duplo em Física e Ciência da Computação. Me dediquei muito aos estudos, fiz pesquisa desde o primeiro ano e no terceiro ano fui selecionada para um programa de verão na Caltech, trabalhando com o LIGO. Hoje, aos 25 anos, estou no terceiro ano de doutorado em Física na Rice University, atualmente morando na França/Suíça, trabalhando no CERN.

Compartilho isso porque muitas vezes pode parecer que uma carreira precisa ser uma coisa ou outra, ou que se dedicar tanto ao esporte é um desperdício de tempo. Para mim, os dois foram complementares: o esporte me ensinou disciplina e me deu uma independência que carrego até hoje. A verdade é que apenas uma pequena parte dos atletas juvenis se torna profissional — mas o tênis de mesa sempre foi muito mais do que competir. Me mudei para um país novo sem conhecer ninguém, o que não foi fácil, mas o esporte foi o fio condutor: competi na NCTTA, fui presidente do clube de tênis de mesa em Columbia e depois em Rice, e fiz amizades que carrego até hoje. O tênis de mesa me deu uma comunidade antes mesmo de eu saber que precisava de uma.